quinta-feira, 25 de maio de 2006

Nascemos e, antes mesmo de fazê-lo, damos a alguém a chance de escolher um nome. Recebemos aquele nome. (Porque não um número?) E, então, já no nos primeiros mm³ de oxigênio que inalamos, somos impregnados pelo vício mantido por gerações e gerações de nossos antepassados. É a poluição, o excesso de CO2, a fumaça do cigarro, do carro, da indústria, da bomba atômica e o fedor do lixão.
Somos levados para casa. Recebemos um berço, uma primeira roupa, um primeiro sapatinho e um primeiro sorriso maternal. Com o tempo nos desenvolveremos, aprenderemos a falar, a ler, escrever. Aprendemos sobre o que é certo e o que é errado.
Menininho na porta indica que o banheiro é masculino e menininha de saia indica o feminino. Deve-se escrever, sempre, da esquerda para a direita. Devemos temer ao Deus Pai, Espírito e Santo acima de qualquer coisa. Meninas crescerão e serão mães. Se quiserem ter uma profissão, que sejam psicólogas, professoras, médicas, advogadas.
Meninos sejam bons pais e competentes engenheiros, políticos, soldados. Devemos pagar nossos impostos, estudar, crescer, constituir família, respeitar a lei do que é certo e o que é errado, nos assentar todos os domingos no sofá e assistir a algum programa nostálgico. Mas, antes disso, encarem quinze anos na escola e o fato de que é só mais um na multidão.
Sobretudo devemos aceitar que Deus criou a natureza e cabe a ele e somente a ele entender os mistérios dela. Devemos nos conformar com nossa falta de sorte. Aceitar que os opostos se atraem, catástrofes acontecem e ninguém é dono de seu próprio destino.
Porque isso? Oras, sempre foi assim. É como uma rotina, ou a cadeia natural dos fatos. São os seres humanos desenvolvendo a sensação ilusória de exercer poder sobre o caos.

O professor de matemática avançada sempre afirma que só uma contra-regra pode provar que não há uma regra. Talvez por isso sejamos criados para seguir a regra e não dar espaço a contra-regras. Criados? Por quem? Não importam os meios, importam os fins. Criados para ser pessoas normais. Nascidos para formar massa e conformar com o que quer que seja, afinal de contas, desgraça pouca é bobagem.
Bombeiros metralhados? Escolas ameaçadas de fechamento? A principal avenida da maior cidade do país vazia em plena luz do dia? Mais de oitenta mortes em um único fim de semana de dia das mães? Repito: desgraça pouca é bobagem.
Entramos em pânico. Assistimos à violência, cada vez mais próxima, sabendo que tudo seria evitado se não existissem jogos políticos, anos de eleição, copa do mundo e nacionalismo populista.

O bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo.

Se analisada pela ótica do senso comum, essa frase pode parecer catastrófica. Vale lembrar que o senso comum nada mais é que aquilo feito para que as pessoas aceitem sem contestar.
Hoje assisti a um filme sobre física quântica que apresentava essa mesma Teoria do Caos incompreendida de uma forma muito mais útil.
Você pode ter um pensamento positivo e descarta-lo ao se entregar ao pessimismo com o qual somos ensinados a viver. Da mesma forma, você pode entender que, aquele a quem personificam e chamam de Deus não é só o criador, mas também a criação; e que se nós somos a criação, somos também deuses em criação. E depende de nós, e somente de nós, desenvolver o poder de mudar o mundo.
Um pensamento positivo pode ser só mais um com destino ao cemitério dos pensamentos sufocados pelo determinismo. Mas, um pensamento positivo, pode ser o bater de asas da borboleta. A coisa que, a princípio é tão pequena que a seu primeiro impulso é descartar logo e evitar o ridículo, mas que se levada adiante pode ser tornar uma idéia. E uma idéia pode ser a boa idéia precisa para mudar o mundo.


O nome do filme é ¿Quem somos nós?¿. É exibido no Belas Artes.

Você pode assisti-lo como se assistisse a mais um documentário. Mas você pode assisti-lo, absorvê-lo e se perguntar:
Até que ponto do buraco você quer ir?

sábado, 6 de maio de 2006

A Petrobrás constrói um gasoduto da Bolívia ao sul do Brasil e de repente surge uma nova febre: Total Flex que nada, todos querem abastecer seus carros com o gás natural boliviano. E os bilhões de reais gastos? Um excelente investimento.
Pois eis que surge um Índio-Presidente-Índio boliviano e diz "Ei! O gás é nosso" e poft! O Brasil vira de cabeça para baixo.
E que venham várias aulas sobre o assunto, afinal de contas, tudo antes do meio do ano cai na Federal. É geografia, economia geopolítica. História. E, modo corriqueiro do Junio História de tratar o assunto à parte; se fossemos os Eua, a essa hora Evo Moraes já estaria sendo mandado para a prisão da base militar Americana em Cuba, onde ficam todos os prisioneiros da pior espécie.
Não somos. E como Lula alegará que não tem dedo suficiente e não fará nada, que dentre alguns meses venham os Ianques às nossas fronteiras!

Lembro. Tinha meus catorze anos quando os Eua invadiram o Iraque. Quase morri de preocupação. Liguei para o cara que namorava na época, Diogo, e nas duas horas seguintes ele tentou me convencer de que aquilo não renderia uma 3ªGuerra Mundial e mesmo que rendesse, ele e meu irmão não seriam recrutados.

Pois eis que surge o próximo da lista do Bush após o Irã.
Talvez eu devesse ligar novamente para o Diogo e dizer que dessa vez não vai só ele e meu irmão, mas o Lázaro, o Felipe e o Salgado também.
Pensando bem, ligar pra ele seria meio complicado já que a última notícia que tive de Diogo foi que se mudou para a Escócia para morar com o Pai. Talvez nesse momento ele esteja ensinando às escocesas a dançar axé, alheio às medidas malucas do Índio Coqueiro.

Não. Não ria de mim. São medos tolos. Apenas meus medos tolos.

Vê. Hoje eu não estou me descabelando. Assisto a tudo com uma frieza débil. Talvez eu devesse opinar. Talvez eu devesse pregar que se legalizassem a Coca, o problema econômico com a Bolívia se resolveria. E talvez quanto, o Irã não esteja brincando com fogo e tenha alguma carta pior que Bomba atômica na manga.

Ainda não vi Duendes, mas: "Se fosse para viajar, qual seria o seu maior medo nessa história toda?"

Se fosse para viajar... eu lembraria do filme. Aquele, muito bom. V de Vingança. Ou como diria a antipática da Veja: "B de Bobagem". Bobagem nada.
E se no meio desse mundo de cabeça pra baixo o não sei o que Macedo dono daquele castelo na Av. Olegário Maciel - com direito à quarto de Luxo para Pastor e dizimo parcelado - resolvesse dar um golpe de estado e recriasse o Fascismo acrescentando-lhe um quê moderno.
A quem ele perseguiria?
Primeiro aos freqüentadores do Matriz, que entram em sua Ilustre Igreja só para usar o banheiro.
Segundo aos vendedores de Vinho barato, que lucram com os freqüentadores do Matriz que ao encherem a cara enchem também a bexiga e por isso - pelo álcool e pela bexiga - entram na igreja só para usar o banheiro.
Depois perseguiria a todos aqueles curiosos impertinentes que vão à Seção do Descarrego só para se divertir. E, finalmente, declararia a caça à Liberdade. À todos que pregam a liberdade. E nessa provavelmente iria eu e você. Já que alguém que não acredita em "liberdade" a muito desistiu de ler esse blog. E acredite! Ele poderia nos proibir de usar saia!

[...]

E enquanto o mundo acaba aqui estou, escrevendo superficialmente sobre tudo enquanto escuto a música que sai da caixa de som ir variando. Começa com Björk e ao fim do Shhh muda para Garbage e uma vontade enorme de dançar toma conta. Contenha-se! Dançar só imitando Chamon. E toca MopTop. Los Hermanos. Strokes. Então toca Hardcore. Cacá deixará um comentário indignado ao saber que eu continuo ouvindo Finch, banda que seria melhor entendida como Emocore... Enfim Placebo.
Penso:
Eu não sou nada mais que uma contradição. Alguém que vive zoando emos, mas ouve uma banda de Emocore.

Talvez eu só esteja traumatizada. Talvez eu só seja como um Pierrot, the Clown.

segunda-feira, 1 de maio de 2006

Certa vez ouvi alguém dizer que coincidências não acontecem.
Lembro da primeira vez que a vi. Era uma criança. Sim, uma criança que queria ser adulta. As garotas que me acompanhavam naquela tarde de abril apertaram-lhe as bochechas e disseram que ela ficaria muito bonita quando crescesse. Sim, ela ficaria.
Tinha menos que treze anos na época, como disse, era uma criança. Eu tinha pouco mais que meus quinze. Creio que tudo aconteceu na mesma época em que comecei a publicar textos por aqui. Era uma garota nerd que havia acabado de ser aprovada no Cefet no meio de um bando de garotas espalhafatosas. Ela era a menina que me olhava de modo estranho e talvez desejasse ficar grande logo e se tornar alguém bem menos nerd, certinho e quadrado que eu.
Depois de três semanas nunca mais a vi e tão ocupada eu estava, com a minha vida, que estaria mentindo se dissesse que sequer pensei que nunca mais a veria.
Um ano depois, o meu mundo já havia caído, eu me encontrava na rua de uma amiga a acompanhando até a casa de uma garota de poucos neurônios. Chegamos, assentamo-nos na cama da garota. Havia mais gente lá. Em boa parte gente conhecida. Me ofereceram um cigarro que eu recusei explicando que não fumava. Alguém fez um comentário sobre esse meu eu politicamente correto. Elogiaram a minha bermuda e o meu cinto de rebites. Havia uma garota deitada no colo de uma garota conhecida. Seu rosto me lembrava alguém.
Reclamávamos de nossas vidas. Perguntaram-me sobre o namoro. Contei sobre as catástrofes. Compartilhávamos nossas infantis experiências enquanto eu segurava os espirros em meio aquela fumaça. E aquela garota que me lembrava alguém.
Foi quando lembrei. Perguntei se era ela mesma. Ela disse que também lembrava de mim e admitiu estar surpresa com o meu posicionamento a cerca do assunto vigente. Disse que nunca pensaria que aquela nerd que ela conhecera poderia ser alguém como eu.
Há um ano atrás, naquela mesma tarde, soube que ela namorava um cara que era como o príncipe encantado num cavalo branco no meio de um sonho cor de rosa. Ele cuidava dela e era o melhor que ela poderia querer. Não a posso censurar por esta pequena ilusão. Eu também possuía sonhos bastante quiméricos naquela tarde. Sonhos em que ao me tornar maior de idade tentaria engenharia em Campinas e iria juntar-me a alguém. Sonhos que não são mais sonhados.
Ironicamente ela estava comigo no show em que meus sonhos foram por água a baixo. Estava comigo, porém indiferente já que obviamente ela sumiria da minha vida nas semanas seguintes por uma segunda vez.
Coincidências não acontecem. Assim pode-se afirmar que uma pessoa aparecer em sua vida por uma terceira vez não é coisa do acaso. Pois ela voltou. Em uma tarde em que eu sofria por alguém nos encontramos. Ironicamente sofríamos da mesma síndrome. Ela me contava que seu príncipe encantado agora brincava de tempo. E que ela estava cansada disso. Ela tomou sua decisão e inspirada nela tomei a minha. E quando dei por mim, ela queria me ver e eu queria vê-la. Ela queria me levar para sair e eu a levei para sair comigo.
Não me perco mais pensando no que poderia ter sido depois daquela terça feira 27 de Dezembro. Lembro-me das palavras que disse a ela, uma semana depois, quando ela disse que o príncipe encantado estava de volta, mas que ela não queria que eu fosse embora.
De uma forma ou de outra não fui. E hoje me preocupo com ela tanto quanto uma irmã se preocupa com a sua caçula. Às vezes eu até falo tanto em sua cabeça quanto uma irmã mais velha faria. Mas é que o príncipe encantado virou o autêntico lobo mau e só ela parece não perceber.
E desde que um conto de fadas se virou em outro, João e o pé de feijão plantou uma sementinha mágica de coca e fez crescer uma torre de babel. E não vou dizer se ele encontrou ou não um gigante lá em cima já que duvido que ela tenha sequer chegado ao topo...
Houve uma época em que acreditava que coincidências aconteciam. Naquela época eu sonhava que o tempo passasse logo enquanto esperava um ônibus chegar não para tomá-lo. Hoje eu espero que um ônibus diferente chegue enquanto sonho que Babilônia deixe de ser babilônia.