terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Tudo está de novo como era antes, tudo está confuso. Mas esta confusão* é só o que eu demais poderia desejar neste instante.

Segundo Heráclito ¿Tudo está em mudança e nada permanece parado.¿

Comecei o último fim de semana decidida a pensar bastante e tentar resolver entre uns e outros. Mas há dias em que de repente algo toma um lugar de destaque e não se consegue pensar em mais nada.
É quando alguém até então desimportante ganha seu papel.
É quando toda a mágica do começo... do novo... do simples ¿estar gostando¿ de alguém começa... E é quando tudo volta ao que era antes. E tudo está confuso.
Mas eu não posso negar que era tudo o que eu podia querer.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Pequeno e frágil e ponto.
Complexo, onde complexidade é um motivo de atração. Difícil. Não difuso. Não prolixo. Não tudo o mais. Parece puro e límpido, mas desesperadamente intocável, improvável, inalcançável e todos os "ins" mais. Observa-se. Pensa-se sobre. Desespera-se. Indaga-se. E nunca saberá o que mais há para se fazer.
Julga-se validável.
Mas sabe-se lá...


O poema não tem a ver com esse post mínimo. É um poema que recitei a alguém hoje. Eu e a minha mania de recitar poemas a pessoas que não os entenderão. Pobres dos poetas incompreendidos.


Quase
[Mário de Sá Carneiro]

Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

...........................................
...........................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...



Repetindo o feito do último post falo um pouco do Poeta, já que suspeito que poucos o conhecerão. Gosto do Pessoa. Fernando Pessoa. Aquele cara que criou três personagens (Heterônimos) com idéias e vidas diferentes e que tinham cada um seu estilo. O meu predileto é o Álvaro Campos (Sim, o pessimista). Pois nas minhas leituras de poemas do Pessoa acabei me deparando com um Modernista Português ¿colega de guerra¿ dele. Eis Mário de Sá Carneiro.



Não muito mais o que escrever por hora. Em breve quem sabe, outra primavera nasça por aí. Por hora resumo-me a isto e nada mais.


Terça Feira, Estado de Minas, Caderno D+, última página: A Crônica do dia 11.01. Ignorem a foto, por favor.

sábado, 4 de fevereiro de 2006

Em dado momento o Rei Vermelho pergunta a Alice: "O que você está vendo?", e Alice responde: "Nada". O Rei impressionadíssimo, comenta: "Mas que ótimos olhos você tem!"

Sinto-me uma cega perante Alice em dias como os últimos.
De repente a melancolia. Aquela mesma que usualmente me atira às lembranças mais dolorosas. Às saudades.
E com ela a insônia. E esta não por excesso de cafeína ou por haver mais o que fazer durante a noite; ocorre simplesmente porque de repente dormir parece incabível.

Dormir. Sonhar, quem sabe.

Mas sonhar parece indigno demais.
E o amanhã parece demoradamente não tardar. E tudo ainda é tão melancólico: O despertador que toca importunamente fazendo tudo parecer cedo demais. O banho. A aurora. O café fervendo. A cor das listras do par de meias que vá se calçar. O ônibus que demoro um pouco a passar. E como o nível de cafeína não parece elevado o suficiente a visão de algo tolo como o banco defronte a porta da sala de aula parece de repente excessivamente apropriada.
É só um querer ser deixado em paz no canto do banco para poder observar e somente observar que até discutir com algum ¿chato oficial¿ perde o seu encanto. As piadas, todas elas perdem o seu encanto. A aula de Matemática, ela perde seu encanto. Qualquer intervalo entre aulas perde o seu encanto. E de repente lá estou assentada no tal do banco observando pessoas passarem quando alguém me resgata daquilo: "Que cena emo!" Emo? Só queria passar o dia todo num banco como aquele assistindo à vida. Por quê? Por quê? Pra quê?
Eu e a minha disparatada mania de observar as pessoas. Analisa-las enquanto me pergunto incansavelmente: O que há por trás daqueles rostos? O que pensam? O que sentem? O que as leva a agir dessa forma? Alcançam assim algo que se possa chamar felicidade?

- Oh! Sim! Amanhã virei com um arco vermelho de bolinhas brancas na cabeça, aliás ele combinaria perfeitamente com meus óculos.
- ... você poderia usar também uma porção de coisas xadrez.
- ... Xadrez? - Julia olha para os tênis. - Já estou quase lá, Ah?

E de repente qualquer rótulo parece indevido. E o que é o vício de rotular a tudo o que se pode senão a ignorância do que se trata?
Seguir tendências parece frívolo. Mas deixando de lado tudo aquilo que é só parecer pergunto-me o que é o ser? No meio de tantas pessoas quem realmente é o que? As pessoas que se apegam aos rótulos e ao parecer entendem o que significa o ser? Usando de um exemplo típico: Pessoas que seguem a moda de beijar outras do mesmo sexo entendem o que leva àquilo ou só realmente um homossexual é capaz de entender o que - excluindo todo o mundo de cores que cantam a diversidade, excluindo todo o mais - é "ser gay"?
Presumiria que sim. Assim como, usando característica mais bem aceitas na sociedade como exemplo, os Românticos parecem tolos e errôneos aos Frígidos e só os românticos parecem capazes de realmente entender o que é ser romântico.

Já voltando à Alice. Penso se não é um erro tentar sempre enxergar o que há além. Pergunto-me se não é um erro imperdoável perder meu tempo em um dia melancólico observando as pessoas e historiando e fantasiando sobre suas possíveis vidas.
Talvez por mais que tentemos entender o que há além a verdade seja que não há nada para entender.

Lembro-me agora de uma escritora Ucrânia, naturalizada brasileira de que gosto muito. Sua escrita é tão boa, que não gastarei as minhas próprias palavras explicando porque admirá-la. Tomarei emprestadas as dela mesma: "Mas já que se há de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas." (Clarice Lispector) Venho cita-la agora não para aproveitar da já feita citação, mas de uma outra frase em específico que li, se não me engano, em um livro dela chamado Laços de Família. Concluo o meu dia de melancolia, bancos e pensamentos com ele:

"Não se preocupe em entender'. Viver ultrapassa todo entendimento."