terça-feira, 31 de julho de 2012

Dezesseis Anos Depois

Dezesseis anos atrás era o meu primeiro dia de aula depois das férias de meio de ano da primeira série. Eu já sabia escrever e fazer cálculos mentais e queria faltar o primeiro dia de aula pra ficar em casa brincando. Minha mãe, grávida de oito meses e sempre impassível sobre esses assuntos de "ir à aula como deve ser", disse que “não querer ir não era motivo pra faltar”. Tive que ir.Na hora em que o sinal tocou e a Sônia foi me buscar ao invés de minha mãe, tive a certeza: “Não era pra eu vir pra aula!”
Era a Flavinha que, assim como eu, resolveu nascer uma quinzena antes e impediu minha mãe de ir me buscar.
Passei o resto do dia elétrica de empolgação. Naquela época o hospital era longe e quase ninguém tinha carro. Fui obrigada a me contentar com o pensamento: “agora eu tenho uma irmã!”, e esperar o dia seguinte chegar.
No dia seguinte finalmente me deixaram matar aula. Me levaram até a maternidade e colocaram aquele pacotinho de panos no meu colo. Olhei pra ela, que tinha cara de joelho, um cabelo fino e pretinho e nem sequer abria os olhos e pensei: “é isso?” Em resposta ela vomitou em mim.Ora, não importava, ela era linda e era a “coisa” que eu mais tinha desejado na vida até então.
Na minha cabeça de criança, eu ganhava um brinquedo que aprenderia a falar, andar, brigar comigo, brincar comigo e tudo isso tinha chegado antes do natal! Eu tinha ganhado uma irmãzinha que iria crescer e brincar comigo!
O que eu não sabia era que naquele dia, tinha nascido a minha maior companheira e a pessoa que eu mais amaria nessa vida.
Hoje ela faz dezesseis anos, já é quase maior que eu e como uma boa irmã há dias em que me tira do sério, quase sempre por seu jeito tão à beira de um ataque de nervos. (Ou quando perde média em física e diz que a culpa é minha, e não dela ) Mas passa sempre um segundo e eu já perdoei. E quase que diariamente ela fala na minha cabeça até os meus ouvidos calejarem, me contas os seus problemas adolescentes, me lembra de quão fácil era a vida antes de ser um adulto, fica irada toda vez que acha que eu não dei importância suficiente pro caso do fulano, amigo do beltrano que eu nunca vou nem conhecer. E aí de quando em quando me mata de felicidade, sem nem saber. Por que eu olho pra ela, vejo o jeitinho dela e morro de orgulho por ela ser tão jovem e já tão Mulher com M maiúsculo em meio ao tanto de “futuras-mulherzinhas” que essa geração 2000 produziu.
Às vezes até trato ela dum jeito meio mãe leoa, como minha mãe sempre me tratou, pois sinto que ela é também um pedacinho de mim; um pedacinho de mim que deu certo e vingou. E ela me olha de volta com uma cara que deve ser espelho da cara que fiz pra ela quando vomitou em mim em seu primeiro dia de vida. Aquela cara de irmão mais velho que diz: “Tá tudo bem, o mundo não vai acabar e, caso acabe, estou aqui e te protejo”.
Hoje faz 16 anos que ela existe no mundo e, antes de desejar a ela um Feliz Aniversário, me vejo aqui dizendo mais uma vez: “Ainda bem que ela existe!”

Ainda bem!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Romances Ficam Velhos


Lembro do que disse naquela manhã de quarta-feira de carnaval. Era sobre resolver primeiro o que era velho, para só então arriscar-se a viver o novo. Ai de mim, que o novo era tão límpido e parecia um pecado absurdo deixá-lo enviesar-se em meio às coisas inconcluídas e insolúveis.

Lembro da sensação que só o novo sabe causar: a quebra da rotina e a inclusão de novos procedimentos tolos feito sempre olhar pro fim do corredor só pra ocasionalmente sentir a gravidade parar de agir no estômago por alguns segundos, enquanto os joelhos bambeiam ligeiramente e a cabeça se esquece que os pulmões precisam de ar. Guardo sobretudo o gosto, doce, e a sensação de tanto a dizer para tão escasso dicionário.

O tentar encontrar as benditas palavras, um quiproquó. Disse tudo o que pude, ouvi tudo o que ela se permitiu, mas eram sempre as palavras erradas. Como não havia contorno, me calei. Me calei e ela se calou. E agora quando palavras se fazem necessárias nos calamos juntas, por minutos corridos e repetidas vezes. O quanto for necessário. Como se não houvesse nada a dizer. Como se nos educássemos ao silêncio.

Resolvi tudo. Vivi tudo que havia pendente ao viver. E agora o meu romance novo ficou velho.
Talvez por este ter começado num abraço de despedida, ou pelas palavras inalcançadas (ou inalcançáveis), mas não morre a sensação de que eu
“sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta”

Não existe porta. Então decidi viver o novo enquanto o novo velho supura.

E o que nos resta são abraços de despedida sequenciados quase harmonicamente, onde a cada um, por alguns segundos, eu me encontro e me perco nela.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fragmentos de postagem nunca terminada de 20/01/2012

(...)

Em 31 de outubro, dia das bruxas de 2011, a população mundial alcançou os 7 bilhões. Desde então tivemos que, mais uma vez, redefinir a nossa noção de problemas de n corpos. É que agora n tem que ser inteiro indo de 0 a mais ou menos 7 bilhões.
No século XIV, quando esse n era definido como menor ou igual a 225 milhões (sabe-se lá por quais critérios) a peste negra bubonicamente levou embora um terço desse tanto de gente.

Devia ser mais fácil amar naquela época.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Cantoria de Árabe

Arrumei esse amigo. Desses que a gente arruma sem saber por que, ou onde, ou quando. O que ele tinha de diferente de todos os outros? Ele pirava mais que eu. Pode-se perguntar, querido leitor, ao que me refiro ao dizer “pirar”. Ele pirava com o tudo. E como pessoa que pira com tudo eu digo: é tudo mesmo cara, tudo.
Ele pirava mais com a física, com a falha miserável que o universo cometeu ao permitir a existência do ser humano, com o amor...

A explicação que consegui pra isso (dele pirar mais...)? Viver dói, o velho clichê adolescente que todos nós conhecemos uma vez na vida e que alguns carregam vida adulta a fora.
Viver dói em mim, viver dói em você, mas viver sempre dói mais nele. Por que ele sabe levar o a flor da pele à sério de mais. Ele é uma ferida aberta e ele sabe carregar aquelas olheiras que gritam com você raivosas: Não importa o quanto você se importe com o significado da vida! Eu fui além!

E então muitas vezes, como ontem, eu chego ao ápice da dor do cotidiano e eu não quero ver ninguém, falar com ninguém, me importar com ninguém, mas eu tenho que fazê-lo. Não sou mais um neandertal e o mínimo que esperam de mim é que eu saiba viver em sociedade.
Então eu cuspo marimbondos para todos os lados, já que marimbondos a sociedade moderna permite.
E depois de umas doze horas nesse ritmo enlouquecedor ele me questiona
“Você tá pirando, Julia seashell eyes?”
“sim, viver dói.”
“então para quê viver?”
“viver é não desistir e desistir é perder”
Então ele me cita Otto Mezzo e a ideia de que mais vale uma página em branco que uma obra incompleta. Deixando por fim a repetida questão “viver para que?”
E então me conta histórias. Histórias que não interessam aqui, mas que fazem quaisquer das minhas dores da existência fúteis, frívolas, inúteis. E só me resta a sensação de impotência.
E isso me toca. Me toca e me desespera. Busco pela velha âncora.
Onde estão as palavras? Penso em onde as perdi. Quando as perdi. Por que as perdi. Procuro-as no âmago. Encontro algumas. Imito-o e recito o otto e mezzo. É sempre mais digno educar-se ao silêncio que calar-se pela eternidade.
Ele diz apensas “bonitas, as suas palavras”
Me dói novamente não ter outras. Ser só isso.
E eu estou exausta depois de um dia de piração. Tenho sono. Penso em ir dormir. Reflito sobre os pensamentos que meu amigo acaba de dividir. Sigo sua linha de pensamento. Penso em quão estranho seria o mundo se amanhã ele não mais existisse.
Durmo com receio.
Mas no dia seguinte, ele ainda existe. Sinto um alívio branco, límpido. Corro pelo DF. Faço as suas vontades mesmo que elas me levem a olhos que não quero encarar (olhos que doam).
É quinta-feira, e quinta-feira é dia de cantoria. A noite chega. Deixam à sua mão um violão e faz-se a mágica.
Ele é uma das pessoas mais tristes do mundo, mas ponham um violão em suas mãos e ele canta com uma alegria que jamais alcançarei e nem ouso almejar. É pura demais. Simples demais.
E eu sinto-me feliz por ele por que ele pira demais mas a sua alegria é muito mais genuína. E assim ele me dá um tom. Ele é o grave que me lembra exatamente onde se começa a afinação.
E se ele canta “cadê teu suin?”
eu respondo: “ele tá na vida”
então a gente deve continuar vivendo, certo? Por que é a única coisa que nos resta a fazer.
O show não pode parar.