terça-feira, 30 de agosto de 2011

Atualização de Cadastro

Atualização de Cadastro

Conseguiu um diploma. Virou mestranda, ganhou um título, um cubículo e um contrato.
Ganhou sete quilos, dois graus a mais de miopia, pinto ou cabelo de roxo e adora dizer que é pra combinar com os óculos vermelhos. Tentou raquetes, tentou correr, tentou a piscina, o boxe e o circo. Mas no fim ficou ainda mais sedentária. Trocou o all star por sapatos novos. Metal por música eletrônica. Permaneceu genuinamente estabanada e por isso ganhou algumas cicatrizes novas. Perdeu a dicção e de repente ficou sem tempo. É que de uma hora pra outra uma década pareceu passar rápido de mais. E pra lidar com o tempo, aprendeu a apreciar os ritos de passagem.

Continua a não ter fé na humanidade mas briga com a própria consciência, o tempo todo, na esperança de estar errada. De vez enquando convence alguém de que não vale mesmo a pena nutrir tal fé. Se entristece por isso.
Dualmente, pensa que não saberia viver sem eles. Seres humanos.

Quando na escola, tinha certo medo de crianças menores reunidas em número alto. Medo que evoluiu pra pavor de massas em movimento. Não consegue andar em um shopping, por mais de dez minutos, sem se irritar profundamente. Aliás, de uma forma geral, gente a irrita. Se felicita nas exceções.

Aprendeu a geometria, aritmética e astronomia. Abriu mão da gramática e da retórica pra isso. Só não aprendeu a música pra não perder a lógica.

Tenta dormir oito horas por noite, ler no ônibus, passar menos horas ligada ao computador, acordar no mesmo horário, beber menos café... É pra ter rotina. Aprendeu a resolver tudo pelo período de oscilação da amostra e acha que a vida não funciona se não for nesse regime. Às vezes até queria ter disciplina militar, mas pensa que isso lhe toleria também a mente e, assim, logo desiste.

Achou uma explicação científica à monogamia. É que problema de três corpos não tem solução analítica. Pra brindar isso, perdeu uma penca de chaves.

Aprendeu a viajar de vez em quando. É Pra sentir saudade. Pra ficar feliz ao rever os belorizontinos nossos de cada dia quando voltar e com isso enganar a sensação de que não deveria estar aqui. Sensação não, certeza. Essa ela mantém. A de que está no lugar errado. E enquanto toda a geração acha que nasceu na época errada, ela acha só que nasceu no lugar errado, mesmo não tendo a mínima de ideia do que é o lugar certo, ou de onde ele seria. Aprendeu tudo o que pôde sobre o espaço-tempo e o espaço de Hilbert tal que é consciente de que é preciso preservar a norma e aceitar a não-simultaneidade das coisas.

Desistiu de ir pro deserto, é muito quente. Mas iria tranquilamente pra antártica.

Um dia, o qual ela deve ter narrado aqui, resolveu subir num tamborete e largar o coração lá de cima só pra ver se ele respeitava a queda livre ou tinha constante elástica. Ele não quicou, só rachou aqui e ali. Encucada, resolveu tentar jogá-lo novamente de algum lugar, dessa vez de cima da lage. De novo ele não quicou, mas soltou um pedaço. Isso a deixou assustada. Mas o pedaço encaixava mais ou menos no lugar de origem e com algum remendo parecia novo. Tentou de novo do segundo andar e dessa vez foram quatro pedaços. Foi aí que começaram a surgir ideias mirabolantes e perguntas que ela não consegue responder. Buscou torres, andaimes, penhascos, os prédios mais altos da cidade e até o topo de antenas. O caso é: os cacos são sempre grandes o suficiente pra poder juntar tudo de novo e seguir em frente. Só que algumas vezes eles são menores ou maiores que em outras. E foi pensando nisso que veio a pergunta e desde então ela não consegue tirá-la da cabeça. Em quantos pedaços é preciso parti-lo pra chegar à unidade essencial da matéria?

Não sabe mais escrever. E só mesmo uma noite de insônia pra fazer ela vir aqui espantar as moscas.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Tô me guardando pra quando o carnaval passar.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A casualidade e o mundo pós apocalíptico.

Não sei como faz.

Não vou me prender aos clichês. Adoro usá-los como estilo em prosa, mas cá não servem mais.
Arrancaram-me um pedaço e a priori este não era fundamental. Era desses parafusos de segurança que vêm a mais nas máquinas e que, no frigir dos ovos, diferença alguma faz perdê-los. Tem gente que morre de amor e acha isso romântico. Não sou feita desse barro (acho que meu barro nem desse mundo é), ainda assim ao reler este post me sinto como um ultra-romântico autêntico e vindo direto do séc. XIX. Habito o espaço dos que pensam demais, refletem demais, delongam demais. Espaço no qual a maior declaração de amor possível é a não usual troca da reflexão interminável pelo viver. Sobrevivi à avalanche com a mesma displicência com que sobreviveria a um furacão e demais desastres naturais. Acaso mesmo só na posição geográfica. Parece que não tinha mesmo outro jeito. Ou era soterramento ou vida serena pra sempre e chato da Silva.

*

Em meio a tantos parafusos que pra nada serviam finalmente levaram-me um primordial. Parando pra pensar, não sei como fui deixá-lo bambo. Acho que simplesmente não me importava até que dei pela falta. Andava displicentemente pelo mundo e numa esquina dei de cara com o bendito parafuso. Incrível como é rápido o reconhecimento do que por natureza é seu. Bastou aquela faísca quase insignificante e eis que aumentou a entropia do universo (ou, sob uma visão bem astronômica, ocorreu o próprio BigBang e do absoluto nada surgiu o todo e ao todo só cabe – como direito de nascença, ignorar completamente a possível existência de qualquer coisa anterior).

Apesar do vício por floreios, acho que reconheço bem os fatos. E o fato é: Serve bem, no outro, o parafuso levado. E na semiótica da vida, o passo é novo e constante.

Seguindo os passos normais de alguém adulto, faço o teste e encaro o meu maior defeito: o pensar demais. Trunco os fatos, os embaralho, às vezes até os diminuo, mas nenhum procedimento pessimista padrão me permite encontrar o ponto falho que descolora as coisas. Os velhos empecilhos padrão de relacionamentos, como a diferença essencial e fatídica entre os dois seres só vêm nos transformar em primavera. E de lá pra cá, eu espero o amanhã chegar com muito mais vigor. Eu tenho muito mais paciência com gente. Eu fico mais feliz com a vida pelo que ela é. Eu consigo ter, até mesmo, fé na humanidade. Viver nunca pareceu tão certo.

Meu subconsciente só não engole a casualidade. Sou grata a ela por sua manifestação existencial. A adoto como jargão. Mas ao tentar engoli-la, a assisto topar com o cientificismo e não conseguir passagem.

O problema todo é que pela primeira vez na vida eu me senti caber em algum lugar. Mas e agora? Como posso continuar com a vida sabendo que existe tal lugar no mundo?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O cara do crochê e da cachaça

Existiu um Jarbas alguma coisa no cenário político nacional no início do século passado, não existiu? Quando penso nesse nome lembro da era Getúlio Vargas. Tinha, ou não tinha um Jarbas no tal do PDT?

Eis o caso de umas semanas atrás.
Estava eu na aula de Métodos em Física Teórica A . O professor é desses meio loucos. - Antes que alguém se atreva ao clichê “Mas pra virar Físico tem que ser louco”, ressalto: o professor é desses loucos, loucos mesmo. Eu arriscaria incluir à história remédios controlados e tudo o mais. - Não me lembro mais por que diabos, ele resolveu contar à classe sobre a única vez em que foi expulso de sala. Ainda era estudante de graduação e, durante uma aula, engajou-se numa disputa de piadas com um amigo. Era o amigo físico experimental e o tal professor físico matemático e disputavam quem contava a melhor piada ofendendo a especialidade do outro. O amigo ganhou e o meu professor riu tanto que foi expulso de sala.

Eis a piada, que segue aqui com menos jeito para piadas que a versão oficial:

Chegava o físico-matemático em casa após um árduo dia de trabalho, quando encontrou a mulher fazendo tricô. Bateu o olho naquilo e ficou fascinado. Usando duas agulhas, ela partia de um objeto unidimensional (linha) e o transformava, com um movimento bidimensional (pra frente pra trás), num objeto tridimensional (o ponto). Encabulou-se e começou a matutar. Perdeu a fome e não quis jantar com as crianças, ficou refletindo sobre o tal do tricô. Os outros problemas (importantes) com que vinha trabalhando foram deixados de lado, até que depois de uma semana de reflexão veio a solução. Triunfante, procurou a esposa e disse:
- Mulher! Fiquei pensando sobre esse tal tricô e finalmente consegui provar matematicamente que é possível fazer a exata mesma coisa usando uma agulha só.”
A esposa, achando graça, respondeu:
- É claro que tem, chama-se crochê.


A sala inteira riu. E, tirando-se o quê machista da piada (o qual diga-se de passagem depois de alguns anos de ICEx aprendi a categoricamente ignorar) a piada teve graça.

Resolvi recontá-la a dois amigos (futuros físicos-matemáticos) desses que pensam que o bandejão fortalece o estômago e que formalismo matemático decente é coisa de macho.
Contei e eles não riram. Mas a piada tinha graça. Então um deles admitiu: “Não sei qual a diferença entre crochê e tricô”.
Perguntei: “Você não tem avó?”
...
Foi então que me lembrei dum sujeito, faltava lembrar o nome.
“Tinha aquele cara da física que era da nossa turma quando éramos calouros...”
“Que cara?”
“O que fazia crochê no DA...”
“Acho que lembro de alguma coisa assim... Era o mesmo cara que sabia falar 100 casas decimais do pi de cór?”
“Acho que era... Era um cara do Vale do Jequitinhonha, que teve um ataque cardíaco...”
“Aquele cara teve um ataque cardíaco?!”
“Teve, na véspera da nossa primeira prova de cálculo. Ele não veio fazer a prova, ninguém sabia o por que. O cara sumiu por uns dez dias e depois apareceu no DA com um galão de cachaça e um marca-passo amarrado no cinto.”
“O cara teve um ataque cardíaco e voltou com um galão de cachaça?”
“É, ele teve um ataque cardíaco, foi passar uns dias com a família no Vale do Jequitinhonha e voltou com cachaça de lá... Não lembra dele fazendo crochê no DA e tomando cachaça com café?”
“Claro que me lembro! Como é mesmo o nome do cara?”
“Não sei, mas acho que o apelido era Pedreiro”
“Ele tinha um nome de avô...”

Nenhum dos dois conseguiu se lembrar. Fiquei encabulada. Resolvi passar no DA e ver se alguém se lembrava. Lembravam do Pedreiro pessoa, não do nome próprio dele. Foi preciso alguma insistência até que alguém finalmente disse:
“Era Jarbas!”

Jarbas! Como poderia ter me esquecido de um nome desses?
Lembrado o nome fiquei rindo sozinha do sujeito por uns dias. Dividi a lembrança com algumas pessoas de meu convívio. Parece que ninguém sabe o que foi feito do cara. Uns tiveram notícias de prisão por uso de drogas. Outros mal se lembravam que ele existia o que é bem triste para alguém tão caricato.
Ao menos fica a anedota.
A qual talvez um dia eu conte aos meus netos. “No início do século, quando entrei pra faculdade tinha um sujeito na minha turma que fazia crochê, usava um marca-passo, tomava cachaça e recitava centenas de casas decimais do pi...”

Dos vinte e poucos para os oitenta são quase sessenta anos. Talvez até lá já exista algum calouro de física que saiba os 2699999990000 conhecidos hoje de cór.
Talvez até lá o sistema universitário brasileiro tenha colapsado e “calouro” seja palavra em desuso.

Será que meus netos saberão o que era um “marca-passo” ou eu terei que explicar?