segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As cigarras não parecem dispostas a se cansarem nesta primavera. Nem assim vejo formigas trabalhando. Minha planta carnívora passa fome. Meu tímpano entra em pânico. Talvez o mundo acabe amanhã. A lua é cheia. Uma cigarra recém saída de seu repouso de dezenove anos atravessa a rua. Se na imensidão do universo vazio viajasse um som, seria este. Assobio de único tom. Sinto falta de algum vício. A melancolia me enjoa. Sinto ânsia de vômito diversas vezes ao dia e nem assim ela vai embora.
Caminha pela avenida central. Referencial é o maior problema da humanidade. Desta forma, a avenida pode possuir palmeiras, paralelepípedos e menos de meio quilômetro de extensão e mesmo assim é considerada principal. Caminha pela avenida central sob o som incessável das cigarras. Música capaz de ampliar qualquer tpm. Alcança a porta principal. Vira a esquina. Olha o ponto onde num dia que não é hoje e nem foi ontem dezenas de pessoa a olharam ou olharão. Segue seu caminho. O som das cigarras cessa. Não há mais árvores, não há mais cigarras. Ao invés disso o barulho infernal de uma das principais avenidas da cidade às dez horas da manhã. No boteco da esquina meia dúzia de pessoas já bebem. Motivo para comemorar? Mágoas a lamentar? Sinto falta de algum vício.
Corre. Ri. Faz piadas. Dorme. Acorda. Come. Chora. Espera demais das pessoas. Menospreza. Tenta dançar. Tenta importar. Tenta buscar. Mas não encontra nada que apeteça. Nem mesmo um café ou um rock legal.
Inércia.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Ataque do Presente Contra o Restante do Tempo


Time is what you can measure with a clock. A child, a city, a love, death... these are clocks. One cannot measure that which we consider past, present, future. People, being at fate's mercy, interpret the period of time in which they decide as 'the present'. They want this period to be long. This is the source of illusion. "The patent text and the sketches prove that the brothers Lumière have solved this problem. Figure 1 is a front view, figure 2 is a cross-section of the plane perpendicular to the plane of 1. The mechanism enclosed in the case is driven by a single shaft. On the shaft is an eccentric disc which moves the vertical slide piece to and fro
that slides in the guides. A horizontal blade adjoins the slide, which forms a hinge at one end and at the other end carries two pins which penetrate the partition in two places. On top of the device, a box contains the perforated strip which runs down behind the partition. The regular perforation of the strip's edges can be crossed by the pins. The strip is drawn down by the pins which lift in a rising movement to keep it in position..."
Everything is ready. The modern magic of the darkened halls begins.

(Alexander Kluge - O Ataque do Presente Contra o Restante do Tempo)

sábado, 2 de agosto de 2008

E vou escrever esta história pra provar que sou sublime.

Como diria Dr. Manhattan, o dia amanhece iluminado pela luz que chega a nós com oito minutos de idade enquanto a luz de duas horas atrás alcança Plutão.
A casualidade dos números aleatórios me fez nascida deste e não do outro lado do mundo. Assim, a luz chega à mim antes ou depois de qualquer outra pessoa.
Os vícios culturais que me fizeram herdar o nome de minha bisavó são os mesmos que me lançam olhares assustados e me pre-julgam dotada de qualquer tipo inepto de inteligência pelo simples fato de ter escolhido uma profissão que por tradição dá o título de doutor em dez anos e mesmo assim não é reconhecida no país.
A verdade absoluta por trás das coisas que repousam e dormem é o que sustenta a idéia da “bela adormecida”.
Dormir, sonhar quem sabe. Viver só depois. Mesmo porque existe sempre uma vida inteira a ser vivida e nada de mais interessante a fazer.
Tudo é belo enquanto inalcançável. Eis a única coisa fantástica sob o impossível. Nada menos, nada mais. À ele o drama.
À alguns a aptidão ao convívio social. Aos demais o tempo necessário para descobrir a devida inaptidão.
Pessoas são só rituais.
Como ir ao cinema sozinho pela primeira vez na vida. Ou como olhar a si mesmo de fora, de forma nua e crua e descobrir que há mais por fora do que você via de dentro. Ou as duas coisas de uma só vez.
E tudo isso é estrangeiro, como tudo.
Como um recém-nascido abrindo os olhos para o mundo. Como alguém a encarar aqueles olhos e ponderar se já existe uma consciência por trás deles. Se não, quando existirá?
Última madrugada de férias. 54 dias até a prova. Fazê-la ou não fazê-la, eis a questão.
Último respiro antes de um mergulho.
É boa a hora. Boa para parar de querer mudar as pessoas. Boa à prática da tolerância.
Início de semestre. Hora de fazer apostas, jogar os dados e arrumar o armário.
Já que escrevo, o jeito é escrever.