quarta-feira, 9 de julho de 2008

Para aquela que veio antes de todas as Marias.

Querida Grande Mãe Vaca,
Faz tempo que não lhe escrevo.
Na verdade, desde que nos encontramos no grande caldo primordial, onde tudo que era vida residia.
Falava-me da velha deusa Nut, sempre a segurar o céu inteiro em suas costas.
Olho pro céu e não a vejo mais. Provavelmente tornou-se alérgica por culpa da poluição em excesso; Aposentou-se do serviço pesado e foi viver o resto da vida numa praia deserta. Talvez esteja agora em Jericoacoara comendo caranguejos e assistindo o pôr do sol no meio da pedra furada.
Olho para baixo e não existe mais chão.
Olho pro palco e tudo que vejo são franceses pelados.
Às vezes até tento olhar para mim mesma. Sempre encontro aqueles olhos Infocati.

Então havia a lenda da peça de teatro do outro dia.
Diz que quando se vê alguém pela primeira vez e o chão estremece, é que nasceu um peixe vermelho no centro da Terra. E sempre que o chão volta a tremer é o tal do peixe passando por ali. Até que um dia ele vira pedra.
Antes virar pedra que ser trocada por um grande pai virgem que se masturba. Siryu não pensava assim. Preferiu furar os próprios olhos à virar pedra como todos os outros.
A noite, grande Mãe Vaca, a noite é a sua hegemonia. És virgem do apego humano simplesmente por não o conhecer. Não precisa nem mudar de casa, ou praticar rituais.
Você tem sorte, Grande Mãe Vaca. Ès eterna e implacável e como a noite, que é sua, não precisa fazer escolhas e somente existe.
Eu, por minha vez, escolho a cosmogamia.

domingo, 15 de junho de 2008

Ontem desenterrei registros em sites de Penpal. Afinal a melhor maneira de aprender uma nova língua é se forçar a usa-la. Depois de muitos perfis abandonados larguei a empreitada e danei a pensar. Vivemos, fingimos existir e tudo o que resta é lixo.
Seguindo a linha, lembrei da história do lixo espacial publicada no jornal cerca de um mês e meio atrás. O que fazer com tanta coisa inutilizada lá fora? Findei a empreitada do Penpal italiano pensando na quantidade de perfis em sites de relacionamento, blogs, fotologs, e-mails, icqs e msns abandonados que populam a rede.
Quem foram todas aquelas pessoas? Quantas eram reais? Quantas fingiam ser? Quantos diziam a verdade?
Pensei então na minha adolescência não tão distante. No meu eu internauta de quinze anos de idade, como bom nascido no final da década de oitenta. Fiz o que tinha que fazer e existi como informação. E o que resta agora? FanFictions publicadas que, absurdamente, até hoje prevalecem em primeiro lugar; posts mal escritos, publicados neste mesmo blog; comentários insolentes, inconseqüentes e imaturos em fóruns de discussão. Teorias, teorias, teorias. O que diz todo esse lixo deixado pra trás acerca de mim? Diz, todo o lixo com que esbarramos diariamente na internet, alguma coisa a respeito de alguém?
É uma problemática similar à proposta por Carl Sagan em Contato. E se, anos e anos luz longe daqui, algum tipo de vida inteligente, até então não comunicante, encontrar um vestígio deste mundo de informação... então todo o lixo virtual, afinal, é a melhor descrição possível da humanidade.
Tenho pra mim que quando se pensa em alguma coisa não pensada há muito tempo, é hora olhar para trás e começar um balanço. É algo como sentir saudades aleatórias de alguém e informa-lo disso. Me informaram, e foi a minha vez de passar para frente. Fui transmiti-las, as saudades aleatórias, e divagar sobre as madrugadas. Sempre como levar um tapa na cara o saber que algo foi mais para alguém do que você imaginava. Descobrir que se deve mais passados que se pode calcular. Pensar em tudo o que deveria ter sido vivido e não foi. Quão cedo e quão tarde pode ser a vida? Quantas viagens podem ainda ser feitas? Quantos bits merecem ser convertidos em carne e osso? Quantos beijos sonhados, roubados, pagos?
O tal do endereço continua anotado, na primeira página de um caderninho. Poderia mesmo alguém reconhecer-te numa construção?
Essa coisa toda de estar só me faz pensar em mim mesma. É bom lembrar sobre tudo aquilo que só pode ser encontrado em si. É bom certificar-se que continua tudo ali.
E isso tudo sempre me remete à Los Hermanos. Sinto-me uma verdadeira Casa Pré-Fabricada com um Retrato Pra Iaiá na parede.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A caixa quadrado azul cai sobre o tapete. O cowboy aparece pela segunda vez, conforme prometido, e diz que é hora de acordar. É hora de acordar.

Eu gosto de filmes que falam de cinema. Gosto de coisas que falam de si mesmas, mas isso não inclui o Woody Allen. Gosto mesmo é de ver o narcisismo do ser humano fluindo. O espelho, dentro do espelho dentro do espelho. Narcisismo por narcisismo é melhor que egoísmo. Narcisismo fica consigo mesmo. Sigo, mesmo.
Hoje de manhã me deu vontade de cantar. Não, nenhum motivo especial. Apenas percebi que fazia muito tempo que eu não cantava. E o que cantar? Los Hermanos, claro. Fazia tanto tempo que eu não cantava Los Hermanos. Entrando na onda, fazia muito tempo que eu não escutava Los Hermanos. Talvez a vida fosse melhor quando era Hermaníaca. Parecia de mentira. Não tinha propósito a longo prazo só listras, sorrisos e samba torto e desengonçado no pé. Feito, assim, uma casa pre-fabricada.
Me parece que as pessoas não sabem é se fazer entendidas. Enquanto eu não aprendo, melhor é ficar só. E desde que estou só ando me rindo da vida. Quanto mais rio, mais céptica fico. Não sei se é bom ou é ruim. Nem quero saber.
Eu me sinto bem mais feliz depois que acordei e decidi não parar pra pensar. Esqueça essa coisa de futuro. O que existe é o que você pretende ser, não o seu futuro.
A vida, a vida imita a vida. Pecado é negar-se a admira-la. Não falo em aproveita-la. Curtindo a vida adoidado para o lixo. Falo apenas em vê-la. Encará-la. Rir-se dela. E então, simplesmente não deixá-la te pegar. Aos amores e amados o perdão. Preciso vivê-la sozinha pra variar. A vida. Correr dela, dribrá-la, desiludi-la, afugenta-la, alicia-la e depois rir junto com ela até dormir.
E quando eu aprender a falar, eu falo.

Ó frase Hermaníaca de cada dia...

E o esforço pra lembrar é a vontade de esquecer.

Ai, O Vento, E como será?

sexta-feira, 2 de maio de 2008

I think today is the most sad day of the word.