sábado, 18 de agosto de 2007

O fato de se possuir internet no computador de seu quarto, vinte e quatro horas por dia os sete dias da semana pode não implicar que passará a escrever diariamente como fazia há tempos atrás. Por outro lado cessa-se assim o processo escrever / não ter como publicar / salvar o texto em alguma pasta / uma semana depois achá-lo / lê-lo / achar que o texto é péssimo / deletá-lo, já que de uma forma ou de outra, antes que venha o ímpeto "falta de ego do escritor" o texto já estará em seu devido lugar. Já faz tempo desde que a atividade era semanal, quase diária. Então cai sobre nós a dúvida. Seria escrever como andar de bicicleta? Ou ainda: Seria o hábito do surrealismo a perdição de qualquer coerência textual? E enquanto uns perguntam se existe vida após a morte me pergunto se existe atividade literária após o cálculo. Um indício preocupante é a piora na dicção. De repente falar integral e entregar na mesma frase torna-se um tremendo trava língua. Mudar-se para as humanas? de forma alguma. Ainda prefiro o niilismo numérico ao comunismo. Mesmo que o café não cure a ansiedade e que a série do livro que te fez começar a escrever e era provavelmente o último resquício da infância tenha chegado ao fim. Cada um tanto pode sempre ser o último parágrafo a ser escrito; quanto pode, vilmente, ser o primeiro dos que virão. E então o dia após dia. A sucessão de fatos. Os fluidos. Os efeitos fotoelétricos. A cólica. A pilha de livros. A greve da biblioteca. O erro absurdo nos dados experimentais. A paciência e sua existência, divida nos extremos de ser perdida ou mantida. O instante. "...para cada instante de meu passado mil futuros diferentes me parecem concebíveis."¹ O cheiro do café. O ar condicionado. A chave a ser copiada. Afinal, o cálculo servindo à física; gaal servindo à física; nós mesmo servindo à física. O burburinho de gente. O barulho do ônibus. O barulho da cidade. O barulho da máquina. A música do vizinho. Junte todos e enlouqueça. A máquina de vácuo. O caderno de receitas. Os cartões na parede. O chapéu coco se enchendo de poeira. O boneco de neve, ainda na prateleira. O pateta de camisola. As coisas empilhadas. Os assuntos empilhados. As chances empilhadas. As roupas empilhadas. Os biscoitos empilhados. Os papéis empilhados. Nada gangorrando. Então escreve? Empilhando palavras, ou desempilhando tudo. É quase a dualidade onda-partícula. Boa tarde e até amanhã.


¹Beauvoir

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Recebe a prova. Provavelmente a sua pior nota em alguma coisa que envolva números por toda a vida. Não que não estude. Estudou uma semana inteira a fio para a prova em questão. Sem cinema, sem literatura. Cálculo. Cálculo. Cálculo. Guarda a prova na bolsa sentindo um quê de amargura na garganta e toma o caminho de casa. Não há nada mais óbvio a se fazer. Resignação, eis a única possibilidade. Pensa na garrafa de café que tomará e nas centenas de páginas sem graça que terá de ler. Os exemplos numéricos que terá que analisar. Nas letras gregas que usará. Nunca sua vida nunca pareceu tão chata e medíocre como agora. Não ler. Não ir ao cinema. Não filosofar em um buteco. Não escrever - sobretudo não escrever. Afundar-se no cálculo. Estudar outra língua como um instrumento para afundar-se ainda mais no cálculo. E para que? Que poesia há por trás disso tudo? Onde está a física? Onde está a física, aquela cuja única serventia aparente é resgatar a poesia por trás dos aparentemente inúteis números?! A mãe se preocupa. "Que tal um professor particular?" O que soa quase como insulto. Viver dezoito anos livre de professores particulares (se tornar um) para necessitar de um deles? Nunca! Nem se não houvesse chance de recuperação. Assumir as próprias responsabilidades. Esta é a questão. Aceitar-se a si mesma com uma nota abaixo da média (e muito). Talvez dispensar o futuro coordenador da termodinâmica, pensa ao lembrar-se da batalha perdida junto as equações diferenciais e do quão alheios os companheiros de empreitada possam inocentemente se tornar. Tudo ao seu tempo; deveria ter ouvido a mãe. Você terá um estágio quando estiver pronta para isso. Deveria ter ouvido o amigo da família, o filósofo; aquele que sempre pergunta se ela continua escrevendo. "Sim", sempre responde embora nem sempre isso seja verdade. Pensa no quão realizada sente-se em ter voltado a atrapalhar as estatística à cerca de quantos livro um brasileiro lê por ano, quando julgou ter sua vida literária marcada, de forma negativa, para sempre pelo fatídico ano de vestibular. Observa, já em seu quarto, a pilha de livros recém adquiridos no oitavo (ou seria nono?) salão do livro. Como seria feliz se pudesse esquecer o cálculo e se dedicar a eles. Se tivesse coragem. Mas é alguém que leva a vida a sério. Ou tenta levar. Assim como aprendeu desde a infância. Começa a desocupar a escrivaninha a fim se entregar ao cálculo pelo resto do dia. Abre a mochila em busca do estojo e se depara com o livro que passou a última madrugada lendo (inacabado). Pensa no cálculo que deve ser estudado. Pensa nas provas da semana. Nas balas que devem ser desenformadas amanhã ou depois. Pega o livro e volta a lê-lo. O cálculo pode ficar para depois. Deveria voltar a escrever. Sempre foi a sua válvula de escape. Sim, voltará a escrever assim que terminar este livro.
Eis aqui o mundo, você vive nele e é grata por isso. Tenta ser grata.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

" Ai, Viramundo de minha vida, que vira Minas pelo avesso, sem revelar aos meus olhos o seu mais impenetrável mistério! Ai, Minas de minha alma, alma do meu orgulho, orgulho de minha loucura, acendei uma luz no meu espírito, iluminai os desvãos de meu entendimento e mostrai-me onde se esconde esse vagabundo maravilhoso, esse meu irmão desvairado que no fundo vem a ser a melhor razão existir. Foi ele, esse iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados, que um dia saltou dentro de mim e gritou basta! Num momento em que meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou a mulher e a colocou num pedestal e lhe ofereceu uma flor. Foi ele quem sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa-de-força com que tolhiam o seu protesto. Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu índio, santo, poeta, mendigo e débio-mental. Viramundo! Que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza de sua loucura."

[Fernando Sabino, O Grande Mentecapto]

Arrumei um novo motivo pra escrever um livro. Quero imitar o Sabino e expulsar uma personagem do meu livro. Sim, sim! Eu quero ser Deus. huunf!
E não é uma simples imitação. É uma manifestação artística mais fantástica do que pessoas de vermelho no 5102.
Vê? O vermelho continua, muda só o meio. Sem ônibos mas através de uma Olivetti. Oh! Romantismo furado!

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Texto incompleto de (provavelmente) uma semana atrás.

O tipo de pessoa que fala muito rápido, mas parece que pensa mais rápido ainda. Uma coisa leva a outra, ou a outra leva a uma; sabe-se lá. Ao menos não é gaga. Não lembro onde li, mas dizem que mulheres não são gagas. Não sei se é verdade, mas vai ver pselismo é uma doença tipicamente masculina. Obviamente, não é gaga. Mas fala rápido e tenta falar enquanto pensa a coisa. Não consegue. Então pensa de volta pra tentar lembrar o que estava pensando quando começou a falar. Embola tudo. Parece complexo, mas não é. É só uma emboleira, simples assim. Gosta de falar e explicar. Mas embola, fica nervosa, embola mais e diz coisas que deveriam explicar, mas complicam mais ainda. Sabe como é?
Talvez devesse procurar um remédio homeopático. Sabe? É metafísica pura, brou. Vão e dizem que a água tem memória. Então alguém diz que não. Começa o ¿sim¿, ¿não¿, ¿sim¿, ¿não¿. Chega um terceiro e diz: ¿quer descobrir a verdade? Uai! Pergunta pra ela!¿ Mas então um diz: ¿a água não fala, como vai dizer se tem memória?!¿ O outro levanta e vai embora. Passa coisa de hora e ele volta com um microscópio. Sai catando água. Água da torneira. Água benta. Água da privada. Água da chuva. Água do orvalho. Coloca tudo quanto é gota d¿água no microscópio e diz: ¿olha! O formato é diferente. Logo, água tem memória.¿ O outro desiste da discussão, vai embora. O outro, o da água, fica rico. O que concluo com isso? Você pode abrir uma empresa e não ficar rico. Mas faz um caixa dois e tudo se resolve. Analogamente, você pode fazer física e morar na casa da mãe pra sempre. Ou pode transformar tudo em metafísica. Eis o segredo da coisa.