sábado, 7 de janeiro de 2006

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.


Vinícius de Moraes

Mandei isso pra uma amiga. Ela tem problemas similares ao meu. Ela anda cercada pelas reticências da vida que não a deixam descobrir o que se deve fazer para seguir adiante. E ela continua apenas seguindo em frente, e me arrasta com ela. E ela chorou ao ler isso. E eu teria chorado. Se eu não viesse me tornando uma pessoa tão hipocritamente fria...


E ela é mais sentimental que eu...

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Eu me pergunto porque as pessoas continuam festejando a chegada de um ano novo mesmo sabendo que ele só será mais um ano.
Eu me pergunto, mas não encontro respostas. Eu sou só uma pessoa que não acha respostas pra nada.
Talvez o motivo seja o mesmo pelo qual a todas as manhãs caminhamos à janela pra ver o sol recém nascido. Nós sabemos que ele nasceu, pois ele sempre insiste em nascer. Sobretudo nós vamos lá, abrimos a cortina e conferimos que tudo continua no lugar.
E parece irônico pensar que mesmo que tudo não esteja no lugar, ele continua nascendo.
E eu não deveria supor nada. Eu não deveria buscar "talvezes" para justificar as coisas. Eu não deveria, mas talvez possa me comparar ao sol. Talvez tudo esteja fora do lugar e como tudo é nada, eu não deveria renascer. Mas eu sou uma ironia. E eu continuo aqui.
Me pergunto também o porque desse vício de fazer promessas de ano novo. Só vejo isso como uma forma de tornar tudo mais difícil. Uma forma de prolongar a esperança moribunda. Porque não fazemos promessas de Dia Novo? Porque não comemoramos a chegada de cada dia? Pois o ¿dia após dia¿ sim é um motivo de comemorações. É ele quem nos leva vida em frente, mesmo quando não temos mais forças para isso. É ele que nos guia eternamente e nunca irá nos abandonar. E é só ele a quem julgo capaz de me compreender, já que ele e eu partilhamos desse Dualismo tão eminente. E da mesma forma como ele pode ser o remédio para todas as dores e o veneno que provocará as mesmas, eu sou só alguém absurdamente estranho e ao mesmo tempo tão normal.


Constatei hoje -
não sem certo prazer - que
Como todos os "a-normais",
sou diferente
Incômoda,
indispensável.


[No Espelho, Maria Maroca]

quarta-feira, 28 de dezembro de 2005

Não me lembro quando foi que começou. Só sei que desde que me entendo por gente vivo em meio a personagens. No começo eram os meus amigos invisíveis. Que viraram fruto dos meus sonhos. E posteriormente habitantes dos meus devaneios.
O fato é que estão todos sempre por aqui. E é curioso pois todos eles tem rosto, lenço, documento. É como se tivesse vida própria. Uma vida criada, moldada e limitada única e exclusivamente por mim. E assim eu tenho um mundo incrível todo em minhas mãos. Um mundo em que só depende de mim a felicidade de todos aqueles a que eu passo horas observando.
E agora todos me olham, todos me assistem pois parece que eu finalmente cruzei a linha. Eu passei dos limites, passei do meu limite.
E com isso eu percebi que os amores da minha vida não são como os meus personagens. E que não basta eu colocar-lhes o óbvio na cabeça e então eles trilharão um caminho menos dolorosos para todos. Os amores da minha vida não são como os meus personagens. Pois não basta dar-lhes o melhor que há de mim. E eu grito com eles. E eu digo que esse não é o melhor caminho das pedras. E eu aceno, eu me pareço muito frenética e desesperada agora. Eu pareço exatamente com o que eu evito ser. Eu pareço definitivamente ter perdido o controle.

Que digno fim de festa aquele. Nós sentados na calçada, eu desolada, murmurando um poema qualquer.
¿E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou...¿
E eu disse que se pudesse eu morreria.
E ela retrucou: ¿...você não morre, você é duro!¿
E ela agora me arrasta em frente. Pois é o que se há a fazer. E nós sabemos disso. Mas ela sabe melhor que ninguém, pois quem unicamente no mundo é mais sentimental que eu? Ela é.

E essa noite eu não dormi. Minha mãe tossia muito, maldita gripe. Mas se ela não tossisse, eu não dormiria da mesma forma. Seria indigno dormir. Eu permaneci deitada, estática. E eu só me levantei para arrancar aquela foto do meu quadro. Pois eu não poderia olhar pra¿gente, não essa noite.

E eu nunca vi ninguém chorar daquela maneira. E o meu sobressalto foi imenso, pois eu nunca te vejo chorar. E você chorava como se dessa forma o mundo fosse acabar, em lágrimas. E eu sentia você no meu ombro. E você tremia. E por momentos eu pensava que os meus joelhos cederiam, e que nós desmoronaríamos ao chão como tudo mais desmoronou ontem a noite. E eu nunca vi ninguém chorar assim. Sobretudo, eu não estava acostumada a te ver chorar. Não na daquela forma explícita.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Eu gostaria de me sentir menos vazia por um espaço de tempo um pouco maior que este.
Eu gostaria que as entrelinhas não me estapeassem o rosto tentando me convencer daquilo que eu já estou cansada de saber.
Esse racionalismo com que às vezes eu tento viver é por demais utópico.
Eu tenho me guiar pelo meu cérebro. Eu tento seguir pelo caminho que parece mais calmo e sereno. Mas há uma coisa que me puxa pra trás. Que me puxa pra baixo.
E eu já não posso controlar o que eu sinto. Eu já não sei direito o que é razão.
Eu olho pra todos os lados e por todos, eu estou cercada de pessoas. Elas não só me cercam. Elas me tocam. Elas me olham. Elas me tentam. Algumas sorriem. Mas nenhuma delas parece disposta a me impedir de continuar caindo.
E elas não falam comigo. Me deixam as entrelinhas. As entrelinhas. E eu me pergunto: porque me importo? São só pessoas. Mas são só pessoas. E elas me deixam cair. Todas elas. Sem saber. E eu caio. E caio. E não sei até quando. Só sei que caio.
E eu já me cansei de tentar criar novas asas. Porque nada parece funcionar como deveria.
Tudo está quebrado.
Eu estou...